Noir e futurista, Aether & Iron transforma jazz em um bom RPG narrativo


Aether & Iron, título de estreia da desenvolvedora Seismic Squirrel, faz bastante para se destacar entre os RPGs. Buscando inspiração em aventuras point and click e com uma boa pitada de Disco Elysium, o jogo combina um cenário decopunk ambientado em uma versão alternativa dos anos 1930 com um sistema de combate em turnos que simula perseguições de carro. O uso consistente de elementos noir na narrativa ajuda a criar uma experiência envolvente, ainda que existam tropeços ao longo do caminho.

Uma Nova Iorque acima das nuvens

A história se passa em uma Nova Iorque alternativa, transformada pela tecnologia do éter e por uma anomalia gravitacional chamada “Poço”, ao redor da qual flutuam diversas ilhas que compõem a cidade. Como tantas outras tecnologias, ela acabou ampliando desigualdades, dividindo a sociedade entre zonas altas e baixas.

A maior parte da trama acontece nos chamados Baixos, regiões quase sem lei controladas por poderosos Barões, cada um com sua própria filosofia de governo. Subornos, violência e contrabando dominam essas áreas. Em contraste, os Altos abrigam uma elite rica, com uma visão privilegiada do céu, além de universidades e monumentos.

A narrativa acompanha Gia Randazzo, uma contrabandista que ainda lida com as consequências de uma missão fracassada que resultou na morte de seu tio, além de ter manchado sua reputação. Buscando se reerguer, ela aceita um trabalho que a apresenta a Nellie, uma jovem cientista dos Altos perseguida por motivos misteriosos. Ao descobrir que o Poço está se expandindo e pode engolir parte da cidade, Gia decide ajudá-la, sem imaginar a escala do problema em que está se envolvendo.

Narrativa forte, mas com ritmo irregular

A história é um dos pontos mais fortes de Aether & Iron. Com uma equipe de roteiristas que já trabalhou em franquias como Far Cry e Mass Effect, isso não chega a ser surpresa. A narrativa é bem construída, com um mundo desenvolvido com cuidado e personagens que apresentam motivações convincentes. Cada ilha, facção e personagem é integrado ao universo de Gia de maneira natural e marcante.

Embora eu considere a história interessante e com boas reviravoltas, a forma como ela é contada acabou sendo um ponto de atrito para mim. Assim como um clássico filme de detetive, grande parte da narrativa se desenrola em monólogos internos de Gia, dublada com maestria por Rhiannon Moushall, que consegue trafegar entre emoções como cinismo, empatia, tristeza e sarcasmo de forma brilhante. Entretanto, em sessões mais longas de gameplay, foi bem comum me ver avançando diálogos sem aproveitar a atuação por eventuais floreios exagerados que mais me desconectaram do que me situaram nesse universo.

A campanha leva Gia a explorar diversas ilhas flutuantes, visitadas uma de cada vez e sem possibilidade de retorno. Cada área apresenta um arco narrativo próprio, culminando em confrontos contra os Barões locais e seus capangas. Esta divisão territorial restrita cria blocos narrativos bem definidos que avançam a história de forma direta.

Sistemas de dados e combate veicular

Nas diversas interações com personagens e itens espalhados nos cenários, muitas escolhas envolvem testes de habilidade baseados na rolagem de dois dados de seis lados, com modificadores aplicados ao resultado. Embora seja possível salvar manualmente antes de qualquer teste, boa parte da graça de Aether & Iron se dá nos fracassos e nos momentos de sorte. Falhas não irão bloquear seu progresso, salvo raras exceções, mas podem também mostrar abordagens diferentes aos problemas apresentados. Certos itens também dão oportunidade de novas rolagens, deixando a experiência mais equilibrada.

Cada ilha é retratada em um mapa composto de vários pontos de interesse conectados por estradas percorridas com o carro voador. Durante os deslocamentos, surgem encontros surpresas, como bloqueios ou interações com outros personagens. É nesses trajetos que os combates acontecem.

O combate de Aether & Iron é uma das variações mais interessantes de estratégia em turnos que vi nos últimos tempos. Cada confronto coloca você em alta velocidade por estradas futuristas em combates baseados em grade, em que o posicionamento é essencial. É possível movimentar seus veículos pelo mapa, atirar, colidir com inimigos e desviar de obstáculos. A cada turno, as condições da estrada podem mudar, podendo introduzir bifurcações, civis ou zonas de perigo.

Conforme o desenrolar da narrativa, você recruta novos membros para o grupo, cada um especializado em diferentes tipos de veículos. Esses veículos podem ser equipados com armas, armaduras, motores e outros componentes, todos baseados nos limites de peso e proficiências de cada classe e que terão maior ou menor sinergia com seus pilotos.

Cada personagem possui árvores de habilidades que podem ser aprimoradas, concedendo vantagens no combate e modificando testes de habilidade tirados nos dados. Os bônus desses testes são compartilhados entre o grupo, então vale a pena diversificar as especializações. As árvores de habilidades e as modificações dos veículos também dão ao jogador um bom nível de controle sobre a composição da equipe. Ainda assim, alguns personagens parecem pouco necessários em termos de gameplay.

Apresentação visual e sonora

Do ponto de vista audiovisual, Aether & Iron impressiona. O jogo apresenta personagens e cenários lindamente desenhados à mão. A trilha sonora em jazz, criada pelo compositor Christopher Tin, de Civilization, ajuda a criar uma ambientação fiel à época, mantendo o jogador imerso no mundo.

Para além dos lindos cenários desenhados a mão, a ausência constante de animações reduz o impacto das cenas. Durante os combates, há uma transição para gráficos 3D simples, que não incomodam nem agradam. Em certos outros momentos dedicados a interações mais pessoais, como momentos especiais de personagens, cutscenes são apresentadas em sequências de slides charmosos e dinâmicos.

Conclusão

No geral, Aether & Iron é um jogo divertido, com uma narrativa rica e um combate envolvente. Alguns jogadores podem se incomodar com o ritmo mais lento e textual da narrativa no estilo visual novel, o que é compreensível, mas quem se permitir acompanhar a campanha de 15 a 20 horas provavelmente vai olhar para essa jornada com carinho. Para um projeto de estreia, é empolgante imaginar o que a Seismic Squirrel pode criar no próximo universo que decidir explorar.


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