Acho que uma das experiências mais divertidas que tive com videogames em toda a minha vida foi com The Witcher 3: Wild Hunt. O momento em que peguei para jogar o game foi um pouco propício para uma completa imersão na obra, afinal, joguei-o apenas no lockdown da pandemia — o que resultou em muitas horas focado apenas nisso. Então, quando The Blood of Dawnwalker, desenvolvido pela Rebel Wolves, foi anunciado com parte da equipe que desenvolveu a obra-prima da CD Projekt Red, instantaneamente o projeto chamou minha atenção e, após mais de 40 horas me dividindo entre ser um vampiro de noite e um espadachim bruxo de dia, saio muito contente com a aventura que presenciei, mas com dúvidas sobre a originalidade da jogabilidade.
The Blood of Dawnwalker é como se fosse uma casa para os fãs de RPGs de mundo aberto. Toda a jornada é extremamente familiar e conta com uma narrativa intrigante que mantém você imerso no sistema de dias limitados para finalizar o jogo — algo que me lembrou bastante The Legend of Zelda: Majora’s Mask —; porém, mesmo com essa limitação, não é necessário pressa nenhuma, porque são 30 dias e dá tempo de ver muita coisa.
“Familiar é a palavra que define The Blood of Dawnwalker
Familiar é a palavra que define The Blood of Dawnwalker. Estar no controle de Coen é como jogar com um Geralt um pouco mais veloz e dinâmico; o combate parece The Witcher 3 com algumas melhorias e pitadas de Kingdom Come: Deliverance e For Honor, enquanto a narrativa é familiar por se tratar da família do protagonista e ter quests incrivelmente bem escritas, assim como encontramos no game da CD Projekt Red.
Ambientada em Vale Sangora, a trama começa a ser contada antes mesmo do menu principal com uma animação belíssima que mostra Coen e sua irmã Lunka fugindo de guardas. No entanto, ambos são encurralados e, quando estão prestes a morrer, Brencis, um vrakhir (nome dado aos vampiros do jogo), aparece com seus três generais: Xanthe, Ambrus e Bakir, mata os guardas e salva Lunka, que estava infectada com a peste. Porém, apesar do ato benevolente, ele é apenas mais um tirano que governa as terras com mão de ferro e ainda pede sangue em troca.
Os vilões principais possuem visuais bem marcantes e, de fato, são uma grande pedra no sapato de Coen durante toda a jornada. Após os eventos iniciais da trama, a família do protagonista é capturada, ele é transformado em vrakhir, e aí começa a contagem de 30 dias para salvarmos eles antes que Brencis seja coroado.

O pano de fundo é simples, mas o brilho narrativo de The Blood of Dawnwalker mora no universo que habita os arredores. Seja por figuras secundárias como Ocha, uma Uriash, uma espécie de ogro das montanhas, ou Anca, uma freira que largou o convento e é uma grande aliada de Coen, ou Crex, o game soube aproveitar muito bem seus personagens e narrativas secundárias que complementam e/ou impactam a missão principal, o que revela uma cuidadosa e bem desenhada teia de eventos que a equipe de roteiro brilhou imensamente em construir.
Além disso, a construção de missões em torno dos vilões principais é bastante libertadora, assim como o mapa do jogo. Apesar de você sempre ter a quest principal exibida no canto superior direito da tela, normalmente você não estará seguindo ela. Habitualmente, você subirá numa torre durante a noite, olhará os pontos de interesse e vai desbloquear atividades e, de repente, verá que está progredindo na lore sem sequer ter se tocado o que é uma missão principal e uma secundária de tão bem desenhadas que elas são.

Tamanha liberdade e essa necessidade de derrubar os generais antes de chegar no grande vilão me evocou memórias de estar em busca das Divine Beasts em Zelda: Breath of the Wild, porque ambos os jogos têm um sentimento de liberdade muito semelhante.
Um dos momentos em que eu mais apreciei a liberdade desse jogo e me assustei com ela foi quando eu apenas queria subir em uma torre de uma igreja na cidade principal do jogo. Acabei encontrando uma entrada pelos telhados, entrei na igreja e me deparei com um ritual de uma vrakhir que parecia um tanto poderosa. Decidi entrar em combate contra ela. Após um pouquinho de dificuldade, consegui vencer e descobri que ela era uma das grandes generais de Brencis. Talvez isso seja uma prova da liberdade que o game entrega ou de um level design um pouco falho de colocar um dos inimigos principais tão acessíveis assim, porém apenas o futuro responderá a isso.
Combate mediano, árvore de habilidades incrível

No meio dessa correria dos combates você acaba entrando em muitas lutas. A minha primeira impressão do combate de The Blood of Dawnwalker é péssima; ele é difícil e eu simplesmente detestei o sistema de aparada e ataque direcionais — você bate em cima, baixo, direita e esquerda e defende nas mesmas direções conforme o ataque inimigo. Porém, após explorar mais, desbloquear mais recursos nas três árvores de habilidade que o game apresenta: bruxo, espadachim e vampiro, o combate se tornou mais tolerável e mostrou que tem um fluxo de gameplay bem dinâmico e fluido, o que ajuda nas batalhas de chefe que apresentam movesets mais diferenciados.

Apesar de ser uma versão melhorada do combate de The Witcher 3, ainda considero as lutas um ponto negativo do jogo. Mas o título, ainda assim, faz um excelente proveito da ótima e extensa árvore de habilidades que apresentam e que mudam a dinâmica do personagem, exploração e batalhas. A ação de estar batendo
Originalidade em jogo
Na onda de The Witcher 3, o meu maior questionamento sobre The Blood of Dawnwalker foi o quão original ele é. A Rebel Wolves, desenvolvedora da obra, conta com muitos veteranos da CD Projekt Red que trabalharam em The Witcher 3, o que gera algumas semelhanças inevitáveis, porque não tem como fugir de suas raízes, mas algumas similaridades para mim são preocupantes.

Assim como Geralt, Coen tem um senso investigativo bastante aguçado, que é muito usado no Modo Foco, assim como em The Witcher 3 há a Visão de Bruxo de Geralt. Diversas missões usam isso e todas elas trazem aquele sentimento de The Witcher, o que, no começo, é algo um tanto nostálgico; conforme foi se repetindo, foi me dando uma sensação de falta de originalidade. Alguns momentos de missões são desenhados de forma semelhante a The Witcher 3. Os menus são muito parecidos, a HUD, diversas coisas transpiram The Witcher e, com o tempo, me incomodaram.
É o primeiro projeto da Rebel Wolves que ainda respira muito do que fez no passado, mas em The Blood of Dawnwalker, eles mostram que podem construir um presente e futuros brilhantes e que pode ser original. Espero que, em um novo game deles, eles se desprendam um pouco das amarras de The Witcher e sejam mais The Blood of Dawnwalker ainda. Se por um lado essas semelhanças podem ser um defeito, ao mesmo tempo, elas mostram o quão bons os veteranos da CDPR são no que fazem.
Um desempenho não tão brilhante quanto a narrativa

A originalidade e o combate são pequenos pontos negativos que vêm acompanhados de um que pode ser outro problema: o desempenho técnico. Ainda no tema de originalidade, outra semelhança com The Witcher 3 que The Blood of Dawnwalker carrega é a carinha de jogo bugado. Isso não é uma grande crítica ou defeito, mas se você jogar ambos, você vai notar que ambos têm algumas movimentações esquisitas e truncadas, embora nada disso prejudique a experiência.
O que prejudica a experiência são os crashes. Joguei o game em um PS5 base e, em muitos momentos, tive crashes que irritavam porque aconteciam no meio de missões e, muitas vezes, tive que refazer objetivos já concluídos. Outro ponto de crítica ao desempenho do jogo — esse solucionado com o patch day one — foi a taxa de quadros travada em 30 FPS. Isso não é um grande problema para mim, mas estamos em reta final de geração e ainda temos títulos que não entregam os prometidos 60 FPS. The Blood of Dawnwalker não possui um mapa ou visuais megalomaníacos para ter uma justificativa de ter 60 FPS apenas no patch de day one.

Enfim, mesmo com alguns tropeços técnicos, um combate que não me agradou tanto e algumas questões sobre originalidade, The Blood of Dawnwalker é um dos grandes RPGs do ano e merece estar até mesmo entre os grandes RPGs da década.
Com missões incrivelmente bem escritas, personagens cativantes e uma variedade de três árvores de habilidades que melhoram um combate mediano, The Blood of Dawnwalker apresenta uma ótima trama cercada de bons momentos e com jogabilidade regada de liberdade sublime.










