A rápida ascensão da inteligência artificial generativa pode ser uma das mudanças mais transformadoras e controversas até agora na indústria de games. Segundo Mike Rose, fundador da publisher indie No More Robots, a situação já saiu do controle, e para as editoras, especialmente no cenário indie, essa realidade já começa a pesar.
Um novo tipo de saturação
A Steam já enfrenta há anos um problema de descoberta de jogos. Com mais de 20 mil títulos lançados anualmente, destacar-se é um desafio enorme para desenvolvedores sem grandes orçamentos de marketing. Mas a IA está acelerando esse problema a um nível completamente novo.
Rose aponta eventos recentes, como o Steam Next Fest, como um sinal de alerta claro. Uma parcela significativa das demos exibidas parecia incluir assets gerados por IA, seja nas artes promocionais, no conteúdo dentro do jogo, ou em ambos. Para editoras que buscam valorizar projetos autorais e artesanais, isso representa mais uma camada de concorrência.
A preocupação não está apenas na quantidade, mas no tipo de conteúdo que invade a plataforma. As ferramentas de IA reduziram tanto a barreira de entrada que criar algo “com cara de jogo” nunca foi tão fácil, mesmo que o resultado final careça de profundidade ou originalidade.
“Do ponto de vista de uma editora, especificamente, é extremamente irritante Se antes achávamos que o número de jogos lançados no Steam era absurdo, agora é simplesmente impossível. Durante o último Next Fest, parecia que cerca de um terço das demos tinha arte promocional e/ou conteúdo gerados por IA. Então agora temos que competir com isso também. Que maravilha!”
O problema estético
Se o aumento na produção já é uma questão, o impacto artístico da IA generativa é outro ponto crítico. Rose não economiza palavras ao falar sobre visuais gerados por IA, descrevendo-os como estranhos e “repugnantes”.
“Sinceramente, você não acha que é simplesmente repugnante?”, comentou o executivo. “Me dá até nojo só de olhar para arte gerada por IA. Prefiro não ver, obrigado.”
Esse sentimento não é isolado. Em toda a indústria, jogadores e desenvolvedores demonstram resistência ao uso de arte gerada por IA. A recente recepção negativa do DLSS 5 da NVIDIA é a prova disso.
Conveniência vs. criação
No centro da discussão está uma verdade simples e incômoda: a conveniência quase sempre vence. Diante da escolha entre investir tempo e recursos na criação de algo original ou gerar conteúdo instantaneamente com alguns comandos, muitos optam pela segunda alternativa.
E esse é o cerne do problema. Os sentimentos da indústria em relação à IA, sejam positivos ou negativos, no final devem acabar sendo irrelevantes. As ferramentas são acessíveis, evoluem rapidamente e estão se tornando cada vez mais comuns.
“Provavelmente, isso nunca mais vai desaparecer. As pessoas agora podem criar coisas simplesmente pedindo a um bot para fazê-las por elas, e você sabe, o problema é que os humanos são extremamente preguiçosos. Não estou dizendo isso como um insulto! É a pura verdade. Então, para muitas pessoas, se houver uma escolha entre ‘gastar um monte de tempo e dinheiro criando algo legal’ ou ‘digitar algumas instruções em um programa e a coisa será feita para mim muito rapidamente’, a pessoa média escolherá a segunda opção.”
“E é isso, na verdade: o que sentimos sobre isso não importa. Não importa que muitos de nós não gostem de IA generativa. Ela vai ser usada agora, e vai ser usada cada vez mais. Como dizem os jovens: os games estão ferrados.”
Mesmo com medidas das plataformas, como a exigência da Steam de divulgar o uso de conteúdo gerado por IA, é improvável que isso desacelere a tendência. No máximo, oferece transparência, mas não reduza o volume.
Fonte: GamesRadar










