Marathon brilha em momentos específicos, mas quase ninguém vai ver isso



Existem certos jogos que mexem com um lugar muito específico na mente dos jogadores, especialmente nos que se dispõem a dedicar tempo o suficiente para se tornarem realmente bons nele. Aliás, tempo é um conceito importante para se levar em conta na hora de analisar Marathon, novo shooter de extração da Bungie que, desde sua revelação, divide opiniões dentro da comunidade.

Com mais de 50 horas jogadas, fica claro que o título tem qualidades inegáveis, mas também carrega problemas estruturais que limitam drasticamente seu apelo.

Mais do que isso, a decisão de apostar em um shooter de extração colocou o jogo em rota de colisão com o público da própria Bungie. Acostumados com a estrutura PvE de Destiny, muitos jogadores não abraçaram bem a ideia de um sistema onde perder todo o equipamento em um confronto PvP faz parte da experiência.

O que é Marathon (e o que ele não é)

Marathon é um shooter de extração com perspectiva em primeira pessoa baseado no jogo de mesmo nome lançado em 1994. Com uma estética futurista muito particular, o game coloca o jogador no controle de Corredores, corpos artificiais que exploram as ruínas da colônia estelar de Tau Ceti IV, planeta para onde a nave UESC Marathon rumou mais de cem anos antes do momento atual da cronologia. O paradeiro atual? Desconhecido.

Mas a história, assim como em Destiny, representa pouco do que realmente é oferecido ao jogador. É claro que você pode se debruçar sobre os milhares de pequenos arquivos de texto presentes no códice e obter uma compreensão geral sobre tudo o que é mostrado nesse universo, mas sabemos que nem mesmo quem se apaixonou pelo título dará tanta importância para o background do que realmente é a experiência do jogo.

O que importa no final é o loop de gameplay, e se você já tocou em qualquer outro shooter de extração, pouca coisa vai soar como novidade, com uma grande exceção para os que se viciarem de verdade.

Interface de usuário e otimização

Antes de me debruçar sobre o gameplay, é preciso falar sobre uma das barreiras de entrada: a interface de usuário. Sim, os menus são confusos. O visual ultra futurista de Marathon, misturando fontes que parecem linhas de código com elementos gráficos ousados, pode causar uma estranheza nas horas iniciais. Alguns ícones, principalmente se tratando das modificações de armas, são quase idênticos entre si, o que torna a experiência inicial um pouco mais truncada. Para quem joga nos consoles, os menus podem ser piores ainda, dada e menor agilidade ao nevegá-los.

Outro aspecto que deixa a desejar é a otimização no PC. Boa parte do meu tempo de jogo foi em um Alienware Aurora 16, equipado com uma placa de vídeo RTX 5050 e um processador Intel Core 7. Utilizando configurações no alto e com DLSS qualidade, me acostumei com uma taxa de estáveis 80 frames por segundo, mas com pouco ganho de performance caso optasse por gráficos inferiores. Pelo que vi em postagens no Reddit, até mesmo máquinas mais potentes não conseguem superar muito a casa dos 100 FPS, o que é bem estranho dado a simplicidade visual do jogo.

O loop básico de gameplay

Entrando em cada um dos três mapas básicos de Marathon, sua missão é encontrar equipamentos e suprimentos enquanto luta contra os robôs malignos da UESC e outros jogadores, tão perversos quanto. Caso sobreviva e consiga sair da colônia, parabéns! Você acaba de se tornar 0,1% mais forte do que estava antes.

Antes de entrar nas diversas críticas que tenho ao jogo, é importante ressaltar que todo o gameplay traz uma sensação ótima. A jogabilidade com as armas traz a “crocância” dos jogos da Bungie, terreno onde o estúdio tem expertise. Embora algumas delas sejam claramente mais fortes que outras, cada uma tem personalidade própria e possuem boa margem de melhora com os acessórios. Os Corredores também são muito bem trabalhados e trazem um elemento tático na composição de times e momentos certos para ativar cada habilidade.

Enquanto armas, escudos, munições, granadas e modificações podem ser utilizados em sua próxima partida, cada tipo de material extraído terá a função de melhorar seus personagens por meio de um sistema de facções e seus respectivos contratos. São seis ao todo, cada uma representando organizações com agendas e objetivos próprios em Tau Ceti IV e te recompensando com itens que casam com sua temática

Justamente nesses contratos que se mostra um dos pontos críticos do jogo: só se pode aceitar um por partida, o que faz com que subir sua reputação até o nível 30, máximo de cada facção, exija muito, mas muito tempo. Cada “corrida” tem período máximo de 25 minutos, com pontos de extração novos aparecendo desde os primeiros cinco, mas são raros os momentos em que se acha algo valioso nesta curta janela.

Ao decorrer das partidas, uma variedade de eventos aleatórios vão surgindo pelos mapas, como chefes, baús protegidos, entregas aéreas e objetivos específicos para cada zona. No Pântano, por exemplo, até três zonas de confinamento podem aparecer, estabelecendo uma área de dano contínuo caso o jogador não tenha pacotes de antivírus ativados. Depois de encontrar duas chaves, hordas de robôs precisam ser derrotadas para liberar um baú com espólios. Mas os recursos realmente valiosos aparecem apenas na terceira zona, então mais uma vez se deve correr contra o tempo para conseguir todas, algo que se torna praticamente inviável ao jogar solo.

A experiência do lobo solitário

Em minhas 50 horas, diria que 95% do tempo foi jogando solo, algo que certamente prejudicou minha experiência com o jogo. Sem um esquadrão, que pode ser preenchido com mais dois jogadores, boa parte do conteúdo de alto nível fica basicamente inacessível. Embora exista a possibilidade de encontrar um aliado ao utilizar o chat de proximidade, a própria natureza de um shooter em primeira pessoa condiciona os players a atirar primeiro e perguntar depois. Caso você venha de Arc Raiders, por exemplo, onde é comum criar alianças para derrotar chefes como a Matriarca, será notável o quão mais hostis os jogadores são.

Ao chegar ao nível 12, o mapa Posto Avançado é liberado, trazendo uma camada adicional de complexidade às partidas. Nele, para acessar o Catavento, área central com espólios de alto nível, é necessário encontrar chaves espalhadas em pontos de interesse. Mas como seus pontos de spawn são aleatórios, e por algum motivo os desenvolvedores acharam uma boa ideia ter momentos onde uma chuva de detritos solares te impossibilita de ficar andando fora das construções sem tomar dano contínuo, achar esses cartões de acesso pode levar mais da metade do tempo da partida. Assim, poucos minutos podem restar para explorar o centro do mapa e, quem sabe, conseguir sair vivo.

Outro grande problema que enfrentei foi o tempo de espera para encontrar uma partida. Marathon não foi um hit instantâneo, muito pelo contrário. Em menos de um mês desde o lançamento, seu número de jogadores simultâneos caiu de cerca de 80 mil para a casa de 40 mil, e no Brasil o cenário não parece ser tão bom. Não é incomum esperar mais de cinco minutos na fila do matchmaking solo.

Isso se tornou um problema conhecido pelos próprios desenvolvedores, que ao tentarem encontrar uma solução, criaram um problema maior ainda. Em uma atualização recente, tornou-se muito comum ser colocado em servidores estrangeiros de alta latência, mas mesmo assim o tempo de espera até encontrar uma partida ainda é alto. É frustrante aguardar os mesmos cinco minutos e ser recompensado com delay para coletar recursos e para o registro dos tiros em oponentes, colocando os brasileiros em uma desvantagem competitiva considerável.

O endgame de Marathon

Passadas duas semanas desde o lançamento, a Bungie liberou o que até o momento é a atividade de mais alto nível do jogo: o Crioarquivo. Esta zona, localizada dentro de uma área da própria nave UESC Marathon, une o PvP hardcore com elementos trazidos diretamente das incursões de Destiny, missões em que o level design do estúdio brilhava e criava puzzles e chefes memoráveis. Mas para acessá-lo é necessário chegar ao nível 25, se reunir com um esquadrão, já que o preenchimento automático é desabilitado, e entrar com equipamento avaliado em pelo menos 5 mil créditos. Mesmo que não seja um investimento tão alto para jogadores um pouco mais experientes, a morte quase certa nas primeiras partidas torna a barreira de entrada consideravelmente alta.

Apesar disso, o Crioarquivo é incrível e único dentro do gênero. Não existe nenhuma outra experiência dentro dos maiores shooters de extração que se assemelha ao que foi criado pela Bungie. Unindo objetivos difíceis de serem cumpridos com jogadores sedentos por sangue, obtém-se as partidas mais hardcore que já vi em um multiplayer — obviamente fora do universo dos jogos competitivos tradicionais.

O mapa conta com uma curva de aprendizado altíssima e recompensas que fazem valer a pena todo o esforço para se chegar às camadas mais altas, e eventualmente, o chefe Compilador, também trazido do jogo de 1994. Ao completar todos os desafios, uma arma de raridade única é a recompensa. Mas infelizmente para por aí. Como a natureza dos jogos do gênero é de zerar todo seu cofre ao final das temporadas, o grind pelos melhores espólios se encerra ao completar o Crioarquivo e os poucos jogadores que conseguem o feito vão guardar sua medalha e nunca mais levá-la às partidas.

A sina de um shooter de extração

Será esse o real fim do loop de gameplay? O medo de perder sua melhor arma para um jogador qualquer camperando com uma escopeta é maior que o prazer de usá-la para dizimar os robôs da UESC. Imagine você, jogador de Destiny, perdendo sua amada Gjallarhorn após meses de grind e expectativa. O que resta é imaginar o que a Bungie ainda tem em suas mangas para manter esse restrito público entretido com o passar das temporadas.

No fim, Marathon é um excelente jogo para os poucos que terão o tempo necessário para investir nele. Entretanto, para 90% dos jogadores, talvez ele não tenha apelo suficiente pelos vários problemas que listei aqui. Para mim, resta a frustração de não poder desfrutar ao máximo do que a Bungie pode entregar. Talvez eu volte periodicamente para Tau Ceti IV com o passar das temporadas, mas não me vejo entre os 10% que farão de Marathon a sua vida.



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