Neon Genesis Evangelion pode ser uma obra da década de 1990, mas isso não quer dizer que ela foi totalmente dissecada por fãs, já que recentemente muitos se sentiram surpreendidos ao saberem que os nomes dos protagonistas são, na real, inspirados em naves de batalha militares do Japão durante a Segunda Guerra Mundial.

Para entender por que Evangelion é tão imerso em referências militares, é preciso olhar diretamente para seu criador. Hideaki Anno não só colocou seu estado emocional na série, mas também seus interesses pessoais mais profundos. Após um período marcado por depressão e exaustão criativa, Anno concebeu Evangelion como uma espécie de catarse pessoal. No ensaio antes da estreia, ele deixou claro que estava colocando sua personalidade na obra, sem filtros ou concessões.
Entre esses interesses estava sua fascinação pelo mundo militar, especialmente navios de guerra. Não é à toa que ele cita Space Battleship Yamato como uma de suas inspirações. O próprio Anno se definiu repetidamente como um “otaku militar”, alguém profundamente interessado em engenharia, estratégia e história da guerra. Essa paixão se traduziu em uma decisão criativa chave: batizar seus personagens com nomes retirados diretamente de navios históricos ou de termos relacionados à navegação. O que a princípio pode parecer uma escolha estética é um pilar fundamental do discurso da série.
Esses nomes não são escolhidos aleatoriamente. Há uma correlação direta entre a história dos navios e o desenvolvimento dos personagens. Suas virtudes, seus defeitos e até seu destino final parecem se refletir na narrativa de Evangelion com uma precisão quase inquietante. É como se Anno tivesse usado a história naval como um mapa emocional sobre o qual construir sua narrativa. Se usarmos uma enciclopédia (ou wiki), vemos que esse tipo de paralelismo não só enriquece a experiência do espectador, mas também reforça o tom trágico da obra. Muitos desses navios tiveram finais devastadores durante a guerra, e seus equivalentes na série seguem caminhos igualmente dolorosos. Ficção e realidade estão entrelaçadas de tal forma que é difícil separar uma da outra. Evangelion não só conta uma história futurista, como também reinterpreta o passado do Japão a partir de uma perspectiva profundamente pessoal.

Um dos exemplos mais claros desse simbolismo está nos personagens principais. Shinji, Gendo e Yui compartilham o sobrenome Ikari, que significa “âncora.” Não há metáfora mais adequada para descrever a situação emocional deles. Shinji está preso em sua própria dor, incapaz de avançar. Gendo, por outro lado, é uma figura imóvel, obcecada por um único objetivo que o consome completamente. Ambos estão ancorados, literalmente, ao passado.
A tríade náutica: âncoras, lemes e sextantes da alma

Em contraste, Ryoji Kaji representa o leme, a capacidade de direcionar e orientar. Seu papel na série é exatamente esse: guiar os outros para a verdade, mesmo que essa verdade seja desconfortável ou perigosa. E então há Gendo Ikari (Rokubungi), cujo sobrenome original significa “sextante”, um instrumento para calcular posição. Antes de se tornar o âncora que conhecemos, Gendo era alguém que podia traçar o rumo. Essa transformação é, por si só, uma das tragédias mais poderosas da série.
Rei e Asuka: contratorpedeiros, porta-aviões e destinos inevitáveis

Se há dois personagens onde esse paralelismo atinge sua expressão máxima, são Rei Ayanami e Asuka Langley Soryu. Rei recebe seu nome de um contratorpedeiro japonês conhecido por sua ferocidade em combate e sacrifício supremo. E é exatamente isso que vemos na série: uma figura, eficiente, quase desumanizada, que acaba dando a vida em um ato de sacrifício absoluto. Seu status de “substituível” apenas reforça essa conexão com a lógica industrial da guerra.
Asuka, por outro lado, é uma mistura de influências americanas e japonesas. Seu nome combina referências a dois porta-aviões históricos, ambos destruídos em circunstâncias dramáticas. E seu arco narrativo reflete essa mesma queda. De uma piloto brilhante e autoconfiante, ela se torna uma figura vulnerável, derrotada por forças que a dominam. Seu destino em The End of Evangelion é tão brutal quanto o dos navios que lhe dão seu nome.

NERV e seus controles: ecos de uma frota perdida
O simbolismo não para nos pilotos. Personagens como Misato Katsuragi ou Ritsuko Akagi também estão profundamente ligados à história naval. Misato, cujo nome vem de um porta-aviões que nunca entrou em combate e foi usado para resgatar civis, incorpora exatamente esse papel protetor. É o refúgio emocional de Shinji, alguém que tenta salvar os outros mesmo quando tudo está desmoronando ao seu redor.

Ritsuko e sua mãe, Naoko, refletem outro tipo de transformação. Seu sobrenome vem de um navio convertido, uma metáfora perfeita para sua dualidade entre razão e emoção. Por trás de sua aparência fria e científica, esconde um turbilhão de sentimentos reprimidos. Evangelion usa esses paralelos para construir personagens complexos, em que cada detalhe tem um significado e cada nome conta uma história.
Reconstrução de Evangelion: Novas Ondas, Mesmos Fantasmas
A reinterpretação moderna da saga em Rebuild of Evangelion leva esse conceito ainda mais longe. Aqui, o sufixo “-nami” ganha uma proeminência especial, ligando personagens como Rei, Asuka e Mari aos destróieres modernos. Essa decisão não é acidental, e aponta diretamente para a ideia de repetição, de ciclos que se repetem repetidas vezes.

Mari Makinami Illustrious, em particular, representa uma ruptura com o passado. Seu nome deriva do porta-aviões britânico HMS Illustrious e do contratorpedeiro japonês Makinami. A personalidade dela, mais leve e decisiva, contrasta com o peso emocional dos demais personagens. É, de certa forma, a única capaz de escapar desse destino marcado pela história, e isso a torna uma figura-chave na nova abordagem da saga. No fim das contas, toda essa rede de referências não é um simples exercício de estilo. É uma forma de canalizar o trauma histórico do Japão e transformá-lo em uma narrativa íntima.
Evangelion não é apenas sobre batalhas contra seres divinos, mas sobre conflitos internos, feridas que não cicatrizam e a dificuldade de seguir em frente. O que a obra faz é mover o campo de batalha para o interior de seus personagens — não é mais travado no oceano, mas nas mentes de seus jovens protagonistas.
Texto traduzido e adaptado do site parceiro 3DJuegos*
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